Tinha um envelope sobre a mesa. Ele era vazio. Fiquei com vontade de tirar a falta de alguma coisa que tinha lá dentro, e mandar pra alguém . Não importava pra quem. Era só vontade de que o vazio fosse cheio. Acho que ser o destinatário de alguém seria mais vazio cheio ainda. Mais difícil. Mas queria. Receber um envelope cheio. De letras ou de qualquer coisa cheia. Eu nunca recebi uma carta.
Estranhamente vi várias coisas no meio da rua . Não sei porquê. Vi coisas e pessoas. Naquela rua que dá pra ver a esquina de longe, tinha três homens e uma coisa no chão. Os homens vestiam bordô e andavam no meio, em volta da coisa pousada no meio do meio. Não sei se tinha asas. Os cachorros latiam, foi a única coisa que eu entendi.
Imaginei, enquanto olhava pros meus passos, se os homens que andavam no meio recebiam cartas. Senti inveja. Pensei o que era a coisa no meio do meio. Não deu pra ver. Passei meus pés bem rápido pela rua, e deixei o olhar na esquina de longe, gostava de ver ela dobrar devagar. Não deu mais pra ver o que era a coisa do meio do meio.
Depois de três dias e um pouquinho da madrugada do quarto dia, a curiosidade apareceu. Pensei que era um corpo morto, no meio do meio. Os homens que andavam no meio, de bordô, o pousaram ali, talvez ele nem tivesse asas mesmo.
Pensei se aquela coisa pousada no meio do meio recebia cartas. Pensei que só eu não recebia cartas.
Imaginei que eu era a coisa do meio do meio, ora eu tinha asas, ora não. Sentia falta de olhar pros meus passos enquanto eu voava, de tocar o chão com os pés. E enquanto eu voava, os homens de bordô buscavam meus pés, acho que eles também sentiam falta dos meus pés no chão. Eles me puxaram, e eu repousei no meio do meio da rua. Eles me olhavam e me entregavam todas as cartas que eu nunca recebi, cada estrela tinha endereçado, naquele momento, uma carta ao meio do meio. Não tinha mais espaço pra mim entre as cartas, então me escondi dentro do único envelope vazio que existia.
Voltei pra mesa. O envelope em frente aos olhos, com seu vazio tão branco, agora voou pra debaixo dela, no impulso sereno do vento. E os cães ainda latiam.
Um comentário:
Extasiado!
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