Já não sei contar o tempo. Já não sei contar a lembrança direito. Sei que foi você que conheci numa noite comum em que se quer perder um pouco do peso do mundo. E você por momentos me tirou esse peso e se marcou na minha história.
Te conheci, você chegou com uma conversinha mole, logo me deu um banho de cerveja, e logo saímos de mãos dadas de manhã, na rua Augusta, correndo do caminhão de lixo, já não me lembro porque.
Sempre a surpresa.
Você me surpreendeu sempre. A gente se assusta quando tá parado diante de algo que pode ser tão grande, a gente se assusta. Começa achar mil motivos pra se esconder. E com você poderia ter sido tudo muito grande. O pouco que foi, já foi grande. Mas agora, você também já foi...
Terminal de ônibus
Não me arrependo do dia em que você me esperou, e eu não apareci. Mas quando lembro dói, e em alguns dias, olhando pro banco do ponto de ônibus, te enxergo me esperando, as pernas abertas, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos entrelaçadas e a cabeça com o olhar viajante pra rua. Queria te pedir desculpa, mas não deu tempo.
O começo do nunca mais
Te encontrei depois disso apenas duas vezes. Na última delas, você fingiu não me conhecer.
Mentira, acho que te encontrei três vezes. Lembro do dia que você chegou no lugar, eu conversando com um cara qualquer, você puxou meu braço, o olhar fervendo. Eu não disse nada, só olhei e puxei meu braço, te dei as costas. Você abaixou a cabeça por um instante, me olhou e saiu. Sozinho, pra nunca mais. Eu vi você indo embora.
Tarde
O que você foi fazer?
Penso como seria se ficassemos juntos. Como seria? Me desculpa, Renato.
Subo a rua, eu estava feliz. De repente seu amigo me reconhece. Meio atordoado, me dá a notícia. O que você foi fazer, Renato?
Abriu uma fenda no espaço e tempo, na memória. Me lembro de você rindo, falando e fazendo o que queria, não importava quem, onde, quando e quanto. Você era um revolucionário. Um louco, intenso, sincero. Não tinha medo. Você não era arte. Você não era poeta. Mas você era poesia viva, arte pulsante e quente.
O que você foi fazer?
Saudade, lágrima, lágrima. Tento imaginar o que você sentiu no terminal do ônibus, o que sentiu quando te dei as costas, o que sentiu de frente ao rio. Impossível. O que sinto tentando imaginar é meu e não seu. A sensação ruim se mistura com uma incapacidade do meu cérebro de acreditar que você foi.
Estranho pensar que é pra nunca mais. Que nunca mais vou te ver, que nunca vou poder falar tudo o que queria. Você foi raro, muito raro. Mas ser raro assim tem seu preço, e você pagou por ele e não aguentou. Sempre intenso, corajoso. Você foi raro. Te aplaudo de pé.
Sem despedidas
Não lembro do seu sobrenome, não me lembro o que você fazia, quantos anos tinha, de onde era, o que queria, o que gostava de comer.
Mas me lembro muito bem do seu rosto, do seu jeito, e do seu olhar.
Me lembro, como se fosse tinta fresca na lembrança.
...
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