quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Ela
A cada nota musical que saía do seu pianinho, ela piscava um olho. Gostava de ver a música com um olho de cada vez. Ela tinha o cabelo preto, e em formato de tigela, bem lisinho. Usava amarelo e não gostava de tomar banho, nem de trocar de meias. Se esquecia de comer e quando comia, colocava tudo na boca de uma vez só, e percebendo que não podia mastigar tudo aquilo, cuspia de volta pro prato. E comia de novo, mania feia que sua mãe detestava. Ela gostava de sentar bem perto do limite do muro que dava lá pra baixo da rua. Bem pertinho do abismo de um metro e meio. Ficava horas ali quieta, quase sem se mover, vendo quem era mais esperto: o abismo ou ela. Gostava de correr em volta do jardim , e de brincar com barro na mão, gostava de sentir o escorregadio da lama, e depois ve-la secar. Ela tocava seu pianinho, e anotava a cor que tinha apertado e o nome do som. Cada som tinha um nome, cada cor também. Quando ela sentia calor, dava um nome pro calor, ela adorava sentir calor. Uma vez descobriu que se corresse bem rápido sentia calor. E durante três dias, depois do almoço, ela corria e corria, sentava e sentia o calor, rindo-se toda. No quarto ficou com dor de barriga e parou. Ela gostava de ficar observando o movimento de seus dedos da mão até aquilo não se parecer mais com dedos da mão. Ela chegava bem pertinho da televisão pra ver os quadradinhos coloridos que tinham na tela, bem pequenos. sua mãe dizia que podia lhe estragar a vista. Aí sempre evitava olhar qualquer tipo de quadrado colorido. Gostava também de arrancar os dentinhos moles, de ficar mexendo neles até saírem na sua mãozinha toda de sangue e baba, não ligava pra dor, queria ver mais de perto o que o escuro da boca não permetia enxergar bem. Não entendia porque a bolinha do meio do seu olho mudava de tamanho quando ela chegava perto do espelho pra ver o que tinha dentro do nariz. Ficava brincando no banho até ficar com a pele enrugada, aí ela saía e desenhava com caneta verde as rugas. Sua mãe ficava maluca. Gostava de rabiscar seu rosto, fazia sempre bolinhas nas bochechas. Ficava horas olhando tudo o que voa pra tentar entender como é que eles faziam aquilo, ficava tonta. Ficava esticando a língua até ela ficar seca e mudar de textura. Gostava de coçar o céu da boca e ficava imaginando como ele era, se tinha estrela e lua, se fazia sol e calor ou se era cinza. Tentava imaginar como um céu cabia dentro de sua boca, e a comida não.
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5 comentários:
Uau! Como não se reconhecer em pelo menos uma dessas sentenças de calor pueril? Que pavor de morrer aos poucos, que saudade do meu pianinho!
Maravilhoso! De uma poesia tão forte ao mesmo que leve, como só você sabe fazer. Faz tudo ficar colorido. Arranca sorriso! E de mim, agora, quase lágrima. Prendi o choro pra não perder o ritmo e não me esquecer que estou atrasado.(é o saco de fazer a vida em são paulo).
Darei uma sugestão: Pra mim, o ápice da poesia é alcançado no "e a comida não." Esse ponto é o meu final. Gosto do restante, mas faz perder força. Daria também pra acrescentar uma outra frase de término, que não essas, mas só saberia qual se fosse você.
Vou guardar.
Beijoabraço.
Nessa, o Luan me pediu pra ler seu texto, cara, quase chorei, só não fiz isso pq eu não gosto de chorar na frente dos outros. É muito forte, ao mesmo tempo que é gostoso de ler.
Ler o seu conto me fez vir à cabeça a vida mesquinha que a gente começa a tomar quando cresce, deixar de sermos nós, para parecermos alguma coisa para aceitarem-nos, seja onde for.
É incrível como a boa literatura traz reflexões diversas. Vou me deliciar nos seus outros textos, dá licensa.
Beijos.
semana passada vi um pianinho desses na Lojas Americanas, deu uma vontade de comprar, aliás, acho que vou comprar ele ainda essa semana. vai ser legal brincar de fazer música com aquela sonoridade e apenas uma oitava rs.
Sugestão aceita.
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