quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Sertão pós-moderno

O clima é semi-árido, semi aerado no pensamento emudecido.
No ar a fumaça pesada de cinza respirada com uma dor abdominal infernal.
Os barulhos se misturam heterogêneos aos ouvidos. Parece que é o choro de uma britadeira no urbano sangrento de concreto misturado com risadas estéricas de mulheres bêbadas, e ainda há um trovão de bem longe de uma chuva que não chega.

Não dá pra sentir na pele ou nas folhas das árvores a direção exata do vento. Ele se perde à cada indecisão que acontece por dentro desse lugar que é um labirinto com pouco ar.
Sobre a mesa, a luz vermelho-piscante-incessante-irritante de um eletrônico descartável conta qual é o tempo que passa pelos olhos estáticos de sede.

No pensamento, a espera iludida e profunda de um toque que não vem, a música que não toca, o telefone que não toca. Nem a pele toca.
Aparecem buracos de desespero confundidos na calmaria oferecida nesse agora.
E no fundinho do querer, aquele querer que ainda resta quase imperceptível no ventre dos escrombos, uma vontade apática de que qualquer coisa de vida aconteça.

3 comentários:

Maitan disse...

Uau! Pasmo!

Maravilhoso! É o melhor e mais poético texto que já te li. E é incrível ler assim te conhecendo sem te conhecer. Que o nosso junto é capaz de construir poesia. Tanto no bom quanto no ruim.

Sei do que se passa. Do que pode se passar. E ler este texto me mostra um conhecido que não conheço. Uma situação em que não estou situado. E é tudo verdadeiramente intenso, vívido.

É de um prazer de ler. Vejo sua evolução num estalar de dedos. E sua poesia, com a mesma intensidade, ser mais intensa.

E isso me faz sorrir.

E isso me faz sorrir.

Flávio UmagumA disse...

não preciso nem dizer que teu texto tá ótimo, não é, Vanessa?

passagens marcantes.

Unknown disse...

Ninguém descreveria melhor o seco da cidade.