segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Num mar só

Ele decidiu que não ia mais chorar. Além de querer ser forte, parar de ser tão sentimental, gostava de entender que podia controlar o aperto do peito, o turvo pré-lágrima dos olhos, o desespero.
No começo teve medo de ficar entupido de lágrimas, e afogar-se nelas, ele se transformaria em um mar de água de mágoa?
O mar da água salgada. Ora água mansa, ora água brava. A maré controlada pela Lua.
Ele sempre se fascinou com o mar.
Analogias à parte.
Ele tinha medo de imaginar no que ele poderia se transformar, sugar as lágrimas de volta com os olhos era muito recente pra ele. Novidade desconhecida e desacreditada. Ele nunca tentara isso antes. Poderia ser fatal?
Mas ele estava decidido. Água salgada no rosto de novo, só do mar. E segurou, durante a vida, as lágrimas de marés bravas e mansas. No começo desviava o pensamento da água. Balançava a cabeça em forma de negação, como se espalhasse as gotas de volta pra dentro. Passeava de barco sobre a tristeza, sobre a raiva ou sobre a emoção da alegria.
Não assistia mais à certos filmes, não ouvia mais certas músicas, se desfez de toda lembrança molhada.
Com o tempo foi ficando incapaz de se magoar, ou apenas já não prestava mais atenção no que sentia, não olhava mais pra dentro. Ele desaprendeu a chorar. Era o homem que não chorava. E nem o mar ele viu mais.
E por consequência foi ficando incapaz à tudo o que poderia gerar qualquer sentimento ou sensação forte.

A gente só se magoa quando antes existia um sentimento "bom", que nos satisfazia de alguma forma, e aí fazem desse sentimento "bom" um quebra cabeças de milhares de peças. E você monta o brinquedo intereiro, mas descobre que perdeu a última peça, que nunca mais terá um encaixe. E com o tempo já nem se lembra qual o pedaço de desenho que faltava no seu quadro preferido.
Então pra evitar a tristeza, ele evitava o prazer, a alegria, a paixão, o amor e qualquer afeto.

O tempo foi se renovando mais e mais, e ele envelhecendo. Moço ele parecia um deserto, ou era muito quente, ou era muito frio, sempre sozinho, sempre. O máximo que acontecia era um vento o mudar de lugar. Há anos não chovia por ali. Não havia vida senão a sua própria.

Envelheceu, envelheceu muito e rápido, como areia de ampulheta. Sua expressão era seca, suas rugas desenhavam seu rosto como chão de sertão. Sua voz era rouca. Nada que se via nele lembrava água. Vivia sozinho na sua casinha no centro da cidade, onde passou a vida nos bares com os poucos amigos, com um boêmio amigo e poeta a cada noite. O que existia de mais molhado nele era sua poesia. Mas era poesia que não saia do papel. que não combinava com seus olhos secos contornados pela pele rachada. Sua vida o fez se tranformar em um grande sertão esquecido por qualquer tipo de outra vida.

Adoeceu. O seco de ser deu um câncer ao seu coração. Tarde, ele não poderia se salvar.
Não chorou nem pela morte. Mas passou o pensamento pelas lembranças. E conseguiu alcançar um mar de sentimentos que há anos nem ele lembrava que já tinha nadado. Se lembrou do amor, em todas as suas formas, que para ele era uma pérola protegido por uma concha rosada. Se lembrou da saudade, que era o salgado nos olhos. Se lembrou como era se afogar naquele mundo de água salgada, gota por gota, que há tempos já não saía por seus olhos.
Por um momento, quase perdeu o controle deles. Mas engoliu o molhado e continuou seco.
Porém agora, ele tinha um intuito diferente. Queria guardar o mar dos seus olhos como um presente. E guardou.

No dia em que ele amanheceu mais disposto, o coração menos cançado, o corpo menos fraco, juntou as moedas. Pegou seu cigarro e comprou um vinho. Foi até uma rodoviária e comprou uma passagem de ida.
Não escreveu nenhum bilhete. Ele não tinha a quem deixar um bilhete.
Sem malas, entrou no ônibus. Não deu bom dia ao motorista, há tempos largou esse costume.
Sentou na última poltrona, do lado direito do ônibus, afim de se isolar. Durante toda a viagem ele não tirou os olhos da janela. Sua vida ficando pra trás do chão da estrada.
Chegou ao seu destino como uma águia que pousa sobre o pico de uma montanha, segura, certa, como quem sempre soube o que estava fazendo, solitária porém sábia.

Descalçou os sapatos. Pisou na areia, espreguiçou os pés nela. Há tempos ele não sentia uma sensação tão forte com um ato tão sutil.
Correu até o mar. Na corrida, caiu derrubado pela primeira onda, se levantou e gargalhou até a barriga doer. Há tempos ele não era feliz.
De dentro da água, levantou os braços pro céu, ergueu a cabeça em direção ao sol, sentindo seus olhos se fechando pela luz.
E viu que dentro daquele corpo seco, existia um cara que se inundou por dentro a vida inteira pra poder deixar a vida de fora seca.
E chorou, chorou até o rosto doer, em prantos, em soluços, suspiros, até o corpo ficar mole, como se sua alma fosse voar. Chorou a vida inteira que o tinha inundado por dentro. Estava tudo lá dentro daquele corpo seco. O salgado das águas se misturando numa água só. Espremeu nos olhos a inundação de todos aqueles anos secos.
E com alívio, se virou do avesso.
E nas águas misturadas, virou um mar só.





2 comentários:

Line disse...

Oi, tudo bem? Descobri teu blog pelo Twitter do Carpinejar... Amei teus textos! Obrigada pela visita ^^

Unknown disse...

Nossa Nessa... Nessa Nossa....

Lindo, sensacional mesmo!

Adorei o texto...